Lembro-me de ter visto o filme O Talentoso Ripley lá pelo começo dos anos 2000 e não ter me envolvido muito com a experiência. Talvez por isso que tenha demorado para iniciar a minissérie Ripley da Netflix, apesar das notas altas da crítica especializada e dos elogios de boa parte do público. Ao chegar ao fim do último episódio não pude evitar de considerá-la como uma das melhores produções já feitas por essa plataforma.

Que trabalho meticuloso e inspirado do criador/diretor Steven Zaillian, nome responsável pela ótima The Night Of e pelo roteiro de obras como A Lista de Schindler, O Irlandês e Millenium, entre outros. Poucas vezes meus olhos tiveram o privilégio de observar algo tão esteticamente virtuoso em uma série de televisão. Com uma fotografia em preto e branco, enquadramentos milimetricamente elaborados e simbolismos que adicionam camadas para a história, Ripley é um deleite visual em que cada frame poderia realmente virar um quadro. Tudo isso potencializado pelas naturalmente belas paisagens de Atrani, Roma, Veneza e Palermo.

De nada adiantaria tamanho requinte técnico se a história não fosse boa. Tom Ripley (o fantástico Andrew Scott) é um golpista/aproveitador de talento que vê uma enorme oportunidade se apresentando diante dele. Ele é um contratado por um empresário rico para ir até a Itália e convencer o filho desse empresário a voltar para casa. Escrever mais sobre o enredo pode me fazer pender para o terreno dos spoilers, então vou parar por aqui.

Steven Zaillian desconhece o conceito de pressa para fazer a narrativa progredir. Ele apresenta os personagens principais e seus interesses com calma, permitindo que eles sejam desenvolvidos aos poucos mas com solidez. Inicialmente, Atrani parece o paraíso na Terra e uma chance para Ripley desfrutar de sua sorte. Mas ele é ambicioso e cheio de artimanhas.

A série ganha em tensão a cada episódio, com direito a reviravoltas inesperadas e a situações de uma violência bem crua. E o que dizer das várias sequências em que o suspense cresce bem devagar até chegar um momento em que se torna quase palpável? Dá para sentir nosso coração palpitando e simplesmente não dá para tirar os olhos da tela.

É raro um streaming oferecer algo que funciona em tantos níveis assim. Sim, estou empolgado com o que acabei de ver, mas acredito não estar exagerando ao chamar Ripley de obra-prima.